"Portugal, ao escolher medíocres e incompetentes para o exercício dos mais altos cargos da Nação (e outros lugares-chave), está a concorrer para o aprofundamento dos valores que o projectam para um estádio de desenvolvimento considerado atrasado, ou seja, subdesenvolvido. Que denominação poderemos dar a um país que se dá ao luxo de violar ostensivamente o que preconiza a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Um Estado que se permite, entre outras coisas, obrigar pessoas a trabalharem em péssimas condições de saúde que designação poderá ter? Quantas pessoas se vão arrastando e mortificando para os locais de trabalho por lhes ser recusada a reforma por incapacidade e não possuírem outras fontes de rendimento para a sua subsistência? É desta forma que se respeita o que está consignado, por exemplo, no Art. 5.º da sobredita Declaração: "Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos e degradantes"? Será que só é reconhecido o direito a reformas antecipadas aos que arranjam "tachos" por compadrio? Aos tais que acumulam várias reformas chorudas por entrarem no jogo de interesses que cruzam os nossos espoliadores? Sublinho uma expressão do preâmbulo da dita Declaração: "... e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam LIVRES de FALAR e de crer, LIBERTOS do TERROR e da MISÉRIA, foi proclamado como a mais alta inspiração do Homem"! Neste país, ou o Homem é uma espécie em vias de extinção ou a alta inspiração não faz parte das qualidades de quem arca com a (ir)responsabilidade de conduzir os destinos do Estado."
"Ordinariamente todos os Ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o Estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?"
(Eça de Queiroz, 1867 in "O distrito de Évora"
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